quarta-feira, abril 06, 2005

Saudades de Nova Iorque



Foi há uns bons anos que uma grande amiga me ofereceu o livro "Viver Todos os Dias Cansa" de Pedro Paixão. Adorei o livro. Não sei porquê, mas há um certo mood na escrita dele com o qual parte de mim se identifica. Gosto deste tipo de sintonias.

Já não me recordo como este "Saudades de Nova Iorque" veio parar à minha estante. Nunca peguei nele numa perspectiva de leitura sistemática. Ora serve de leitura de mesa de cabeceira, naqueles intervalos entre dois livros, durante os quais fico indeciso sobre o que ler, ora serve para folhear, quando não sei o que me apetece ler.

Hoje tive uma sensação engraçada com este livro: parecia que qualquer página em que eu me fixasse, encontrava frases interessantes. Outra vez aquela sensação de me identificar com o mood...

segunda-feira, abril 04, 2005

Ghost in the Shell III



A banda sonora do filme Ghost in the Shell: Innocence", já falado anteriormente neste blog, tem algumas faixas muito giras. Claro que encontrar este CD no mercado Portugues deve ser tarefa virtualmente impossível... Fica aqui a referência feita, com uma imagem da capa do CD.

Wiki sobre investimentos



Na sequência da leitura do livro "Intelligent Investor" (Benjamin Graham, HarperBusiness) fiquei com vontade de criar um wiki onde poderia servir como repositório de informação (e conhecimento!), na perspectiva de investimento em valor, preconizada pelo autor. Descobri que existem vários sites que alojam wikis sem custos, escolhi um, e aqui está o resultado: investments.wikicities.com. O objectivo não é obviamente que seja o meu wiki, mas sim um wiki que consiga reunir massa crítica suficiente para se tornar um projecto que cresça.

sexta-feira, abril 01, 2005

Visita às obras do Metro



Hoje realizei um desejo antigo, já desde que começaram as obras do Metro na Alameda (Afonso Henriques, Lisboa). Contactei o metro, primeiro por mail, e depois telefonicamente, e consegui que fosse inserido numa visita de estudo de uma universidade. Após um briefing sobre as obras, visitamos o túnel até a "cabeça" da escavadora. O processo de construção do tunel é interessante: são passos em que primeiro a escavadora avança cerca de 1,5 metros, e depois são colocados 6 segmentos de um anel de betão à volta. Os aneis são apertados, na direção do túnel, por força hidraulica, e argamassa é injectada entre o exterior dos anéis e a parede escavada.

Em futuros posts colocarei aqui algumas fotos que tirei durante a visita. Stay tuned!

quinta-feira, março 31, 2005

Ghost in the Shell II



Ontem acabei de re-ver o Ghost in the Shell: Innocence, um filme de anime fantástico. A banda sonora é muito boa, contribuindo imenso para o mood do filme. Há passagens com ambientes espetaculares, nomeadamente o tema de abertura do filme, e a chegada a uma determinada cidade. Neste último cenário está a decorrer uma especie de desfile de carnaval, com imagens e planos simplesmente espetaculares. Um filme imperdível!

sábado, março 26, 2005

Investimentos II

Retomando a questão dos investimentos, esqueci-me de mencionar alguns pontos interessantes:

Porque razão um indicador tão fundamental como o EPS (ou o PER) são tão dificeis de encontrar? Os EPS normalmente aparecem nos relatórios financeiros, de uma forma nem sempre muito explícita. Em alguns casos meritórios, até chegam a aparecer nas páginas iniciais da secção para investidores da respectiva página da empresa. O motivo é simples: com a intenção de passar uma imagem de boa saúde financeira, nem sempre este indicador favorece essa imagem que se quer passar. Por isso é mais comum encontrar-se indicadores com nomes crípticos como EBITDA. Este indicador representa o resultado da empresa antes de serem descontados juros de empréstimos bancários, impostos, depreciação e amortizações. Ou seja, é normalmente um valor superior ao EPS, e esconde possíveis debilidades financeiras tais como dívidas elevadas, por exemplo. Este é apenas um dos muitos motivos por detraz da dificuldade em analisar a saúde financeira de empresas.

Um exemplo: no site da EDP podemos encontrar um PDF com os slides da apresentação de resultados de 2004. Nessa apresentação o EPS aparece em letras bem pequeninas no segundo slide -- 0,127€ em 2003, 0,120€ em 2004 -- mas encontramos o EBITDA por todo lado! Podemos encontrar o EBITDA de todos os componentes do grupo EDP. O EBITDA e o resultado líquido aumentam de 2003 para 2004, mas o EPS não. Porquê? Em 2004 houve uma operação de aumento de capital, através da emissao de mais de 650 milhões de acções. Ou seja, o número total de acções que constituem a EDP aumentou, o que implica que os lucros da empresa são distribuídos por mais acções. Isto explica porque é que, apesar do resultado líquido ter aumentado, o EPS desceu. Claro que este facto deve ser tomado em linha de conta ao avaliar o valor de uma acção da EDP. Aliás, o mercado por si já tratou disso, pois antes do aumento de capital a EDP rondava os 2,35€ e agora anda pelos 2,20€.

O único sitio onde se podem encontrar os EPS de empresas da Euronext Lisboa que conheco é no Painel do Investidor do Jornal de Negócios.
Contudo, avisaram-me que a informação relativa ao EPS está extremamente desactualizada...

Contudo, informação sobre cotações, mais ou menos em tempo real, abundam em todos os orgãos de comunicação social. É verdade que já esteve pior: lembro-me dos telejornais comuns com os tickers das cotações das acções, actualizadas ao minuto! Que paranoia...

Mas qual é o interesse de omitir informação essencial como o EPS, e inundar o público com informação instantânea sobre o que sobe e o que desce na bolsa? Há um motivo muito forte: marketing por parte das corretoras. Inundar o público sobre subidas e descidas induz nelas a ideia que oportunidades de ganhar dinheiro fácil estão a passar-lhe pela frente. Comprar e vender acções é um negócio extremamente lucrativo para as corretoras. Por cada transação, normalmente levam uma comissão fixa, acrescida por vezes de uma percentagem do montante envolvido.

Por exemplo, a BIGonline cobra praticamente 8€ por transacção, mais 0,1% se o montante for superior a 250000€. Ou seja, se comprarmos 1000€ de uma determinada acção, e a vendermos a seguir, o banco leva-nos 16€, ou seja 1,6% do montante inicial. Ao ponderar se o investidor em causa deve ou não vender esse lote de acções, convém não esquecer que 1.6% da eventual subida da cotação é simplesmente engolida pelo banco! Isto já para não falar no imposto do estado sobre as mais valias...

Ou seja, compra e venda de acções, independentemente de o cliente ganhar ou nao, é sempre lucrativo para o banco! Daí que na epoca da grande euforia bolsista da chamada bolha da Internet, as corretoras online tenham proliferado como cogumelos. Corretagem online, numa época em que o público e os media estavam eufóricos com o mercado de acções, era um negócio extremamente lucrativo. Claro que depois do crash, mais de metade destes sites desapareceram...

Outro exemplo: quem não reparou já como a Pararede aparece frequentemente nas listas de maiores subidas (e descidas) do dia? Para um leigo até podia parecer um título interessante, onde se pode ganhar dinheiro fácil aproveitando uma destas subidas em flecha. Contudo, se formos ao site da empresa e lermos um relatório financeiro -- por exemplo o de 2003 -- verificamos que a Pararede teve prejuizos de 43 milhões e de 16 milhões de euros, em 2002 e 2003 respectivamente. Ora, quem é que no seu juizo perfeito irá comprar acções de uma empresa nestas condições? Só mesmo para especular na bolsa...

Especular na bolsa não faz ninguém rico. Claro que há quem tenha sorte. Mas há quem tenha azar. Ou seja, é um jogo!

Mas não se deve confundir especulação com investimento. A ideia do value investing de Benjamin Graham é precisamente o contrário de especular: tomar decisões sobre compra e venda de acções devidamente fundamentadas.

Ghost in the Shell



Esta série de animação é simplesmente excelente! Tudo começou com uma manga de Masamune Shirow com o nome Ghost in the Shell. O contexto é similar ao do Blade Runner, um dos meus filmes favoritos de sempre.

Em 1995 um filme com o mesmo título foi produzido, tendo-se seguido em 2002 a série de televisão com o subtítulo Stand Alone Complex. Em 2004 surge a sequela do filme (Innocence). Na Amazon podem-se encontrar DVDs da série até ao volume 7.

O que me atrai mais no Ghost in the Shell? Por um lado, claro que o retomar do ambiente do Blade Runner é um ponto muito forte. Mas por outro há aspectos muito interessantes, como a banda sonora (ver por exemplo aqui), e a combinação da tecnologia futurista com sensualidade feminina. Claro que é discutivel até que ponto se conseguem explicar gostos. Por isso, fico-me por aqui: adoro!

Investimentos



Este livro revolucionou a minha forma de pensar sobre investimentos, principalmente no que toca a acções. O autor -- Benhamin Graham -- foi o pioneiro, na década de 40, do paradigma de value investing. Apesar de ter sido originalmente publicado em 1973, já na sua quarta edição revista, o seu conteúdo é extremamente actual. Acresce que os capítulos são intercalados por comentários actuais (de 2003, na edição que tenho), que complementam e demonstram como as ideia de Graham continuam actuais.

Uma das ideias mais fortes do livro, a meu ver, é a afirmação que o que deve distinguir um investidor "agressivo" de um investidor "defensivo", não é tanto a propensão para correr riscos, mas sim o tempo que esse investidor esta disposto a dedicar ao estudo e acompanhamento dos seus investimentos. Não se trata de seguir o mercado dia a dia -- Graham chega a ridicularizar esta obsessão de seguir o mercado -- mas sobretudo de se ter tempo para estudar a saúde financeira dos alvos dos investimentos.

Agora com a Internet tudo isto tornou-se muito mais fácil. No site de qualquer empresa cotada na bolsa é possível descarregar os relatórios financeitos dos últimos anos. Contudo, esta tarefa é extremamente consumidora de tempo (falo por experiência própria!).

No caso das acções, por exemplo, um dos indicadores mais importantes é o Earnings Per Share (EPS) (resultado líquido por acção, em portugues). Este valor é divulgado anualmente e é calculado dividindo o resultado líquido pelo número de acções em que a empresa esta dividida. O resultado líquido corresponde a todas as vendas subtraídas de todos os custos de funcionamento, ou seja, é o lucro final obtido. A ideia do EPS é medir o valor real desse lucro, por cada acção da empresa, uma vez que uma acção representa uma fracção de posse da empresa. (se alguém conseguir obter mais de 50% das acções de uma empresa, na prática tem poder total sobre ela). Deste EPS, uma fracção fica na empresa, para ser re-investido, e o restante é dividido pelos acionistas, na forma de dividendos. O EPS representa assim a capacidade de uma empresa de gerar lucro.

Qual é a relevância deste indicador? O valor absoluto do preço de uma acção tem pouco interesse per se: podemos comparar com os maximos e mínimos históricos, com médias moveis, e todas as outras ferramentas dos especuladores bolsistas. Mas essa não é uma forma inteligente de investir -- segundo Graham, a ideia de que os especuladores bolsistas fazem fortunas na bolsa é um mito. O quociente entre o preço de uma acção e o EPS da companhia em causa (no último exercicio, ou na média dos últimos anos) corresponde a outro indicador fundamental: o PER (ou P/E, denominado Price to Earnings Ratio. Isto corresponde a quantas vezes o preço de uma acção é superior ao EPS. Por exemplo, um PER de 20 corresponde a um preço de uma acção vinte vezes superior ao EPS. Como estamos a dividir duas grandezas monetárias, o PER não tem dimensões. E por outro lado, podemos comparar PER de empresas diferentes, uma vez que factores de escala afectam o preço e o EPS de igual forma.

A filosofia de Graham é que apenas se deve comprar acções quando o seu preço for suficientemente atractivo, e vender quando o seu preço se tornar demasiado alto. Mas então o que é um preço baixo ou um preço alto? É nesta avaliação que entra o PER. Segundo Graham, nunca se deve comprar uma acção com um PER igual ou superior a 15 (quinze). Por outro lado, se o PER de uma acção subir para valores superiores a 20 ou 25, então pode ser boa altura para vender.

Tipicamente os mercados acionistas oscilam entre duas fases: a chamada bull market, onde os preços subem desmesuradamente, e a bear market que mais parece uma depressão total. Investidores menos informados (tipicamente o público em geral) tem uma perigosa tendencia natural para achar que o mercado esta interessante nas fases de bull, onde tipicamente só se torna do conhecimento geral, por sucessivas noticias na comunicação social, quando os preços já estao perigosamente altos, e desinteressam-se (vendendo) quando o mercado está deprimido.

Ora, o investidor inteligente deve fazer precisamente o contrário: quando o mercado esta deprimido é a melhor para fazer "compras", ou seja, procurar acções de boas empresas que estão a transaccionar a preços de saldo (olhando para os EPS dos últimos anos). Nas fases do mercado mais animadas, e consequentemente mais especulativas, é quando se deve pensar duas vezes se é boa ideia continuar a possuir determinadas acções, uma vez que -- como a história mostra -- as fases de bull market são sempre sempre sempre seguidas por um crash bolsista. Foi assim com a depressão da decada de 30 nos E.U.A., tal como foi com a chamada "bolha da Internet".

Conclusão: caso queira reunir dinheiro para projectos futuros, a longo prazo (seja comprar uma casa, sem ter de passar anos a pagar juros ao banco, pouco ou nada amortizando no valor emprestado, seja preparar uma reforma mais confortável financeiramente), e não lhe agrade a ideia de a inflacção ir rapando parte das suas economias, trate de estudar de uma forma séria como investir o seu dinheiro. E uma excelente forma de começar é lendo este livro!

Before Sun-whatever

   

Acabei de ver o filme Before Sunrise, que em estreou 1995. O que me levou a procurar este filme foi ter visto, há já algum tempo, a sequela Before Sunset no cinema.

Gostei deste último bastante, por vários motivos: primeiro, trata-se de um filme onde 99% dos dialogos são exclusivamente entre duas pessoas. O filme consiste em 80 minutos de dialogo entre duas pessoas. A partida isto podia ser uma ideia entediante, pelo menos para mim. E portanto foi uma surpresa ver-me agarrado ao dialogo de principio ao fim, sem sinal de saturação. Os dialogos estão muito bem escritos -- leia-se realistas -- e os dois actores funcionam muito bem juntos.

Em segundo lugar, apesar de fisicamente toda a acção se passar num simples passeio por uma cidade por parte de duas pessoas, a relação entre elas faz um percurso bastante rico: começa num contexto, e termina noutro. Não é que o final seja uma grande surpresa -- o decorrer a coisa vai tornando-o inevitavel.

Em terceiro lugar, a filmagem da sequela ocorre 9 anos após a filmagem do primeiro filme, correspondendo ao mesmo intervalo de tempo na história. Os actores estão de facto 9 anos mais velhos. À primeira vista pode-se dizer que é preciso ter paciência para esperar 9 anos entre filmagens...

A sequela pode-se ver bem sem se ter visto o Before Sunrise, pois há referências suficientes para se ter uma ideia do que se passou. Contudo não resisti em procurar e ve-lo. O Before Sunrise é, do meu ponto de vista, mais straightforward do que a sequela. Contudo goza do mesmo formato -- 99% do tempo de dialogo entre duas personagens, um passeio por uma cidade (Viena de Austria neste caso) -- e tanto o script como o desempenho dos actores não está abaixo do que na sequela.

Conclusão: para quem está farto de filmes feitos tipo salsicha que Holywood produz industrialmente e nos vende com quantidades imensas de marketing tipo-sabonete, aqui está um par de filmes muito interessantes.

quinta-feira, março 24, 2005

Lounge Radio



Rádios online há muitas. Ao longo dos últimos tempos convergi em apenas duas rádios, ambas excelentes. Sou capaz de as estar ouvir o dia todo, raramente me cansando, ou me saturando. São elas a Lounge Radio e a KJAZ (a primeira de lounge music e a segunda de jazz).

Foi na primeira que ouvi pela primeira vez um DJ-set absolutamente incrivel, em que as faixas se sucediam com uma fluidez e coerencia, cada uma melhor do que a anterior. O autor do mix: DJ-Goop. Após lhe ter enviado um bem merecido donativo, recebi password para ter acesso aos outros mixes todos, e gravei dois CDs de dados com os MP3s todinhos. É verdade que nem todos são tão interessantes, e alguns mais ao estilo DUB, confesso que pouco ou nada me cativam.

Do DJ-Goop, de entre as dezenas de mixes que ele disponibiliza nas páginas dele, destaco, de uma forma não totalmente desprovida de ordem de preferência:
cosmopolitan-affairs.mp3
ambergris-anticipation.mp3
lounge-radio-mix.mp3
tango-y-samba.mp3

Sexta sinfonia de Mahler



Ena, ontem chegou o CD da 6a sinfonia de Mahler que tinha encomendado pela Amazon. Em vez de encomendar directamente, usei um daqueles links de novos e usados. Tinham-me aconselhado como uma boa ideia. Os novos vêm aparentemente com aspecto de novo. Confirmou-se: tirando um canto rachado, o resto veio impecavel!

Quanto à musica, estou a ouvi-la neste momento pela primeira vez, enquanto escrevo esta entrada. Escuso-me a comentar, porque nunca gostei de nada de Mahler à primeira audição. Mahler requer algum esforço, várias audições, para que depois se chegue à conclusão de que se gosta ou não. Aconteceu assim com as minhas outras sinfonias favoritas de Mahler, por ordem decrescente de preferência: sinfonias números 7, 5, e 1. Tenho por aqui também um CD com a 2 e a 4, mas não me cativam, pelo menos por enquanto (com excepção de uma ou outra faixa).

Outro aspecto, que confesso não lhe ser insensivel, é o design gráfico dos CDs. Não só a Deutsche Grammophon (DG) tem normalmente a melhor música, como também, do meu ponto de vista, o melhor design gráfico de capas de CDs. Pode-se achar ridiculo que se compre CDs com base na imagem gráfica, mas estou-me nas tintas. Contudo, os meus melhores CDs de música clássica são da DG. Quando compro, na dúvida, compro sempre DG.

Em particular, a série de sinfonias de Mahler da DG com Pierre Boulez como maestro tem das capas mais lindas que já vi. Vejamos:

     

Não são lindos?

PS: Destes, só não tenho a sinfonia número 4. Portanto, quem me quiser oferecer um CD, já sabe... ;)

I'm back!

Wow, long time no see. Este blog tem estado morto desde... hum... 2003! Quase 2 anos de inactividade. Este post é para re-inaugurar o blog, he he he. See ya later...

segunda-feira, agosto 25, 2003

Política pura

O objectivo de qualquer governo é trabalhar para a qualidade de vida das pessoas, não no imediato, mas a longo prazo. Os maiores feitos da civilização tem sido a capacidade de pensar e realizar a longo prazo, por vezes tão ou mais longo do que a vida biológica dos proprios decisores (governantes). A isto chama-se estratégia. Portugal precisa de uma estratégia, se não quiser ficar para traz. E acho que não devemos ficar para traz, não por competição pela competição, mas porque nunca nenhum país atingiu a qualidade de vida sem se relacionar com os outros países.

A meu ver, uma estratégia a longo prazo para Portugal deve basear-se um paradigma reformista do estado. Rejeito os modelos extremados do socialismo e do liberalismo, acreditando que o modelo ideal deve ir "beber agua" a estas duas fontes. Ao socialismo deve ir buscar as preocupações sociais, e a participação do estado no desenvolvimento do país, nas áreas onde a iniciativa privada não consegue obter resultados. Ao liberalismo deve ir buscar a iniciativa privada, a concorrência e o mercado.

Identifico a direita política com o liberalismo, onde o valor mais importante é a liberdade, mas como a liberdade de cada um deve acabar onde começa a do outro, deve-se ter em conta o valor da igualdade, que identifico com a esquerda e com o socialismo. Entre estes dois valores -- igualdade e liberdade --, sou tendencialmente mais pela liberdade, pelo que me considero uma pessoa de centro-direita, mas não tão à direita que não considere o socialismo como um paradigma muito importante.

As reformas que Portugal precisa, a meu ver, são as seguintes, pela ordem lógica:

Em primeiro lugar, reforma da justiça, para que seja possível legislar e fazer cumprir as leis; sem uma justiça que funcione (rapida e eficazmente) não vale a pena legislar, havendo o perigo de se ter que legislar tendo em conta que certas leis não conseguem ser impostas. Para esta reforma creio que o mais importante é a informatização total do sector, usando por exemplo ferramentas de work-flow. Tal como se fez na FCT (fundação para a ciência e tecnologia), devia-se acabar com o papel nos processos, digitalizando tudo. As provas físicas deviam ir para armazens distribuídos pelo país, e devidamente etiquetados, e manipulados informáticamente.

Em segundo lugar, reforma da máquina fiscal; dado que 57% dos rendimentos não são declarados, qualquer melhoria na recolha de impostos e no combate à evasão fiscal trará importantes receitas ao estado, para que possa investir em à reas chave (ver adiante). Para que isto funcione é preciso ter a justiça a funcionar! Mas não dá para fazer investimentos se o estado não tem dinheiro. Só para se ter uma ideia da dimensão do problema, quando no ano passado os juros das dívidas declaradas ao fisco foram perdoados, o estado conseguiu arrecadar apenas 10% das dívidas. Isso deu para tapar 1% do deficit publico. Ora, isso significa que se todas as dívidas declaradas (sublinho, declaradas) fossem pagas, Portugal deixaria de ter um problema com o deficit. Aliás, bastaria metade das dívidas... Dá que pensar, não dá?

Em terceiro lugar, reforma da educação, investindo fortemente, com o que se conseguir na reforma anterior. Esta é uma reforma a muito longo prazo. A Irlanda conseguiu arrancar para o pelotão da frente da UE começando com esta reforma. É uma reforma a longo prazo, mas que é a que mais contribui para a qualidade de vida. Não só porque individualmente uma pessoa com formação superior consegue melhores empregos, e com melhor qualidade de vida para a sua família, mas também porque isso permite colectivamente uma vantagem competitiva a nível da inovação.

Em quarto lugar colocaria as outras reformas, que não são tão essenciais como as três anteriores, mas também sem as quais não se consegue obter essa qualidade de vida que se ambiciona. São elas: a baixa de impostos para o aparelho produtivo, atracção activo de investimento estrangeiro, reformas do sistema nacional da saúde, reformas da segurança social, reformas da administração pública (talvez esta seja essencial para as três mais importantes...), reforma do sistema político, etc.

Repare-se como há uma sequência lógica nas três primeiras. Contudo, creio que elas devem ser feitas em paralelo, porque senão teremos que esperar anos e anos...

O governo anterior, de Guterres, apenas conseguiu avançar significativamente na à rea da ciencia e tecnologia, porque tinha um ministro muito forte e competente nesse ministério (Mariano Gago). Mas de nada serve encher o País de doutorados, se não temos justiça, fiscalidade e educação a funcionar!

Este governo prometeu fazer muitas reformas, inclusive tem estado a fazer progressos significativos no combate a evasão fiscal. Talvez ainda seja cedo para avaliar se as coisas estão a funcionar. Mas creio que o pessoal que forma este governo deixa muito a desejar, para o projecto que Portugal precisa. Durão Barroso assustou demasiado o País com o cenário negro que pintou (com razão ou não, ainda não sei), pelo que teve imensa dificuldade em encontrar ministros com vontade e motivação para trabalhar neste contexto.

Este governo apresentou-se às urnas com um projecto de longo prazo, pelo que avaliações a curto prazo são necessáriamente injustas para a obra que se propos fazer. No fim da legislatura teremos uma ideia melhor sobre se a coisa está ou não a funcionar. Mas lamento que, apesar de Durão Barroso falar que pretende investir na educação, não se tenha visto ainda grandes investimentos. Será por causa do problema financeiro do estado, ainda não resolvido? Não sei, mas se este governo não mostrar vontade de investir em à reas chave do estado, dificilmente conseguirá convencer os Portugueses que vale a pena votar PSD nas proximas legislativas.

Inauguração

Esta entrada marca a inauguração do meu blog. Ao que parece, o ultimo hype da net são os blogs. Confesso que normalmente resisto um bocado a dar atenção a hypes, mesmo quando não os conheco, podem até ser algo de interessante. Creio que uma das coisas que me motivou para criar um blog foi o do José Pacheco Pereira, chamado "abrupto". Achei incrível como ele é capaz de escrever tanto com tanta frequência...

Qual é a ideia de criar um blog? Será só criar um por criar? Também, admito. Mas também me ocorre outras coisas para ir pondo aqui: frequentemente me ocorrem ideias que me dão algum gozo pensar, daí que talvez seja interessante publica-las aqui, não as deixando morrer na espuma dos dias.

Hoje é domingo, dia de Marcelo Rebelo de Sousa no Jornal Nacional da TVI. Costumo ouvi-lo sempre, com mais ou menos atenção. De hoje, o que me ficou na memória foi a análise do discurso de reentree do PS, com o discurso longo, cansado, bota-abaixo do Ferro Rodrigues, e as argoladas da (ex?)embaixadora Ana Gomes.

Nunca gostei do Ferro Rodrigues. Quando ministro do Guterres sempre tive a imagem de uma pessoa honesta, séria, mas na verdade isso sempre foi a imagem que a comunicação social passou dele. Não me recordo de o ouvir em entrevista nessa altura. Depois da saída (desistência?) de Guterres, e após o PS andar um bocado baralhado (desesperado?), falou-se primeiro de Jaime Gama, mas depois acabou por ser o Ferro Rodrigues a suceder a Guterres. Sublinho, suceder. E acho que quem conhece política, e estando Portugal numa democracia, suceder significa tentar continuar o trabalho de um antecessor, mas a uma fasquia abaixo (se assim não fosse, não era sucessor, mas sim antecessor, passo a confusão). Ferro Rodrigues tentou continuar o trabalho de Guterres, mas a um nível abaixo, em dois aspectos: no que respeita ao combate político, Ferro não tem a classe e subtileza de Guterres, pelo que tem sempre atacado o Durão Barroso de uma forma demasiado irritada e emocional, roçando o ataque pessoal (Guterres tinha por hábito ser muito cordial nas relações pessoais, mas atacar de uma forma feroz as políticas); e no que respeita o projecto político, dificil seria, sendo sucessor de Guterres, propor um projecto alternatico a Guterres, pelo que a única coisa que foi capaz de propor na campanha eleitoral foi a continuação de Guterres, de que naquela altura o País estava farto.

Mas Ferro Rodrigues, apesar de nunca o ter confessado claramente, apresenta-se sempre com um ar cansado, agastado. O que será que lhe vai na alma? Ele é o lider do PS, pelo que está amarrado, crucificado, ao papel de uma pessoa energica, com garra, um lider. No entanto isso não cola lá muito bem com aquilo que ele transmite corporalmente, pelas expressões faciais por exemplo. Alguns musculos da cara têm a curiosa propriedade de reagirem directamente ao estado emocional da pessoa, e não são (facilmente) controlados voluntariamente. Por outro lado, o nosso inconsciente reage directamente às expressões faciais das pessoas que vemos. Há uma comunicação subliminar quando ocorre contacto visual entre duas pessoas, que não se passa ao nível do consciente. E o que se sente de Ferro Rodrigues é que ele não está lá muito motivado para o papel de lider do PS. Estas reflexões pareceram-me muito mais claras quando li a transcrição na Visão de uma conversa telefónica entre Ferro e António Costa, a serem verdade. E o que li nas entrelinhas, no discurso subliminar, ao nível do que o inconsciente de Ferro quer exprimir, é que ser lider do PS está a ser um calvário para Ferro Rodrigues. Ele usa esse termo, calvário, para descrever o que ele tem sentido ao percorrer o país, tentando fazer passar a sua mensagem (enfadonha, quem tem paciência para o ouvir?), em que os media teimam em falar do caso de pedofilia. Mas o que eu extraí dessas palavras é que, ao nível do inconsciente, ele esta cansado e farto de ser lider. Ele sente-se obrigado a fazer este papel de lider, pela sua carreira politica. Mas no seu intimo, acredito que ele queira fazer outra coisa qualquer. Mas como ele é uma pessoa solidária com o PS, e como o PS náo dispôe de alternativa a Ferro, a esta distância das proximas eleições legislativas, ele vai levando o barco, carregando a cruz, até que o clima político mude, e se torne relevante o PS ter um lider a altura de um partido de poder, alternativo ao PSD, que mais legislatura, menos legislatura, mais ano menos ano, vai entrar em decadência, e irá ter que ser substituido. O meu medo é que tenha que ser substituido por um partido ao nível que está o PS nestes dias...

Sobre Ana Gomes, não tenho muito a dizer. Na altura em que Timor ocupava as 24h dos noticiarios (deixavam de fazer jornalismo, e começaram a fazer política activa, ainda que por uma boa causa!), os media passaram a imagem que muito devíamos a Ana Gomes. Não conheci as suas acções ao pormenor de perceber porquê, mas admito que a imagem corresponda ao seu valor como embaixadora. Quando uma pessoa é excelente num cargo, dificilmente será igualmente boa (ou melhor) noutro cargo, excepto se for na mesma linha. Ser militante do PS náo está na mesma linha, pelo que, apesar das suas qualidades, só se podia esperar uma Ana Gomes ao nível de uma militante comum, sem grande brio. O problema é que o PS não percebeu isso, e pretendeu usa-la com base na boa imagem que ela tinha. Mas ela tinha boa imagem como embaixadora, náo como política! Isto explica, a meu ver, como a actuação dela como política tem sido muito sofrivel. Nesta semana ela levantou uma polémica completamente dispensável, desconhecendo a posição do PS em anteriores momentos. Lembrei-me da argolada de José Lamego (do PS), quando veio fazer uma conferência de imprensa, sobre Timor, tendo sido logo após violentamente desmentido por, alas, a propria Ana Gomes. Mas nessa altura Ana Gomes ainda não era militante do PS...